A Estrada Parada, a Economia Estrangulada

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EDITORIAL

Há uma estrada que é a veia principal de Moçambique. Chama-se N1. Sem ela, o país fica sem pulso. E é precisamente essa artéria vital que, hoje, está cortada. Submersa. Intransitável. A decisão das autoridades de interditar “por tempo indeterminado” a circulação entre Maputo e Gaza não é apenas um aviso a condutores. É o som de um alarme económico a soar em todo o sul do país.

O cenário é devastador. As cheias já afetam mais de 640 mil pessoas, um número que cresce a cada hora. Mas para lá da emergência humanitária imediata – pessoas em telhados, casas destruídas, vidas perdidas – desenha-se uma crise económica lenta, profunda e silenciosa.

O que significa, na prática, ter a N1 cortada?

Significa que o combustível para as bombas, os medicamentos para os hospitais, os alimentos para os mercados, não chegam. Significa que o produto que um agricultor de Gaza cultivou para vender em Maputo apodrece à beira da estrada. Significa que o turista que investiu numa viagem ao Bilene cancela, e que o dono do restaurante local vê o seu rendimento evaporar-se.

É um efeito dominó de asfixia. Os preços dos bens que ainda conseguem circular disparam. A inflação, esse imposto invisível sobre os mais pobres, ganha força. O comércio, formal e informal, pára. A produção agrícola, base da subsistência e da economia regional, foi literalmente levada pela água. Os campos estão alagados, as colheitas perdidas.

O governo admite que precisa de tempo para reestabelecer a circulação. Tempo que será uma eternidade para uma economia que vive do dia-a-dia.

Esta tragédia expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade extrema de Moçambique. Não é só uma guerra contra a água; é uma guerra contra o atraso. A fragilidade das infra-estruturas, a dificuldade em planear o território e a exposição crónica a fenómenos climáticos criam um ciclo vicioso de destruição e pobreza.

Enquanto a água não baixar e as máquinas não começarem a trabalhar, o sul de Moçambique está não só isolado, como em risco de paralisia económica. A conta a pagar por estas cheias não se medirá apenas em pontes reparadas ou estradas reasfaltadas. Medir-se-á em meses de recuperação lenta, em oportunidades perdidas e no empobrecimento de uma região já frágil.

A ajuda humanitária é urgente para salvar vidas hoje. Mas será preciso uma vontade férrea e investimento sério para proteger a economia de amanhã. Porque de pouco serve resgatar pessoas dos telhados se depois as condenamos a voltar para a mesma vulnerabilidade. O país precisa de respostas de emergência, mas exige, com urgência, uma estratégia. Antes que a próxima chuva volte a parar o país.